terça-feira, 31 de julho de 2007

Ser para Ter, por Armando Correa de Siqueira Neto


"A felicidade não provém de terdes muito, mas sim, de serdes muito. Pois sendo muito, evidentemente, possuireis tudo o que desejardes". Com esta frase brilhante de Lourenço Prado, um estudioso do psiquismo e do desenvolvimento humano, pode-se reflectir sobre o tipo de objectivo que as pessoas têm ao longo da vida. É possível almejar situações distintas: ter ou SER, e ainda, ambas. Via de regra, boa parte da população deseja ter, coisas de um modo geral. E, para tal, despende-se uma enorme quantidade de energia, haja vista os esforços que são necessários para se concretizar os desejos frequentes de consumo.
No entanto, quando a pessoa possui conhecimento, experiência e sabedoria, torna a aquisição das coisas em geral, muito mais fáceis. Ou seja, quanto mais somos, em inteligência e aplicabilidade da mesma, melhor planejamos e obtemos os resultados do que pretendemos na vida. E, aqui especialmente, incluem-se outros tipos de aquisição, além dos objectos: amizade, simpatia, adaptação, compreensão, admiração, etc. Para tanto, precisamos muito mais SER do que ter.
À medida em que se avança nesta direcção, cada qual à sua maneira, faz-se mais portas abrirem-se. As pessoas que crescem em SER são percebidas em virtude da sua atmosfera atraente. Assemelham-se a um imã, cujo magnetismo atrai e prende. Desta forma, o seu jeito diferente de SER cria novas formas de se relacionar e, consequentemente, amplia-se as hipóteses de ser mais bem aceite e admirado. SER é um estado que dá trabalho também, todavia vale qualquer esforço, uma vez que se adquire algo permanente, e não passageiro como os objectos. Assim, tem-se um tesouro que atrai outras riquezas, com solidez e segurança. Além, é claro, de aumentar o desenvolvimento pessoal, a auto-estima, o poder social, etc. Deseje as duas condições para si próprio, dando prioridade ao que fundamenta a ordem das coisas: SER para ter
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Ditadura da Beleza – uma visão subjectiva, por Sâmara Jorge

Não é de hoje que somos sistematicamente submetidas a um forte apelo pela valorização da estética.
Abrimos as revistas, ligamos a TV, olhamos outdoors pelas ruas e lá estão expostos corpos esquálidos como ideal de perfeição feminina, sem falar do culto à ginástica - imagens que pouco reflectem os padrões reais da grande maioria da população.
A cada dia proliferam academias, clínicas de estética, novos tratamentos anti envelhecimento, anti estrias, “anti-isso”, “anti-aquilo...”ufa!!!
É tanta informação e novas propostas que, se não tivermos senso crítico, somos levadas a querer experimentar tudo ou, o que é pior, sentimos a nossa auto-estima ir a baixo.
Sem dúvida, a vaidade, a estética e o culto à saúde, são muito importantes. Isso só se torna um problema quando há uma super valorização desses aspectos.
Não é raro que esse excesso de preocupação com a beleza e a estética esteja a serviço de evitar confrontos com a realidade, ou com sentimentos de frustração, medo, angústias e inseguranças. E essa parece ser uma questão do mundo actual. Basta olharmos para a incidência cada vez maior e mais precoce do número de casos de transtornos alimentares e depressões. É inequívoco que essas patologias têm como causa dificuldades internas muito profundas, mas também são reforçadas por valores culturais, que chamarei aqui de ditadura da beleza.
Constantemente recebo no meu consultório mulheres inseguras, com a auto-estima bastante comprometida, em geral, sozinhas, em busca de um parceiro. Não atender a esses padrões, muitas vezes compõe a lista de factores que minam a sua segurança. Não conseguem valorizar a sua beleza, nem mesmo outros aspectos tão interessantes das suas personalidades!
Fico a pensar o quanto a valorização desses atributos externos está tão arraigada em nossa consciência que deixamos de olhar para o que realmente importa: a essência humana que está dentro de cada um de nós!
Isso sem falar nos contos de fadas, que mostram como ideal do modelo feminino, princesas loiras, de cabelos lisos, magrinhas, passivas, cujo único desejo é encontrar um lindo príncipe encantado: forte, valente, protector, bonito, etc. Quase sempre são personagens sem identidade própria, sem atitude e esvaziadas de conteúdo.
E o que dizer das bruxas más que são sempre feias...
Contudo, ouso dizer que há uma centelha de mudança a brilhar nas nossas consciências...
Shrek – o filme – é um exemplo disso. Trata-se de um conto de fadas moderno, que polariza com essa valorização do ideal de beleza e põe em questão o que é belo e verdadeiro em e para cada um de nós. Parece conter um novo paradigma, já que mostra a multiplicidade da natureza humana em cada personagem.
Fiona é uma princesa que carrega um segredo: a sua dupla natureza. De dia é uma “linda” princesa, à noite transforma-se num “ogre”. Foi atingida pelo feitiço de uma bruxa que disse que só encontraria a sua essência quando fosse beijada por um príncipe.
Acredita, assim como todos que estão à sua volta, que a sua verdadeira identidade é a de princesa. Entretanto, é salva por Shrek, um ogre que também acredita não ser o seu príncipe, pois é feio, não tem bons modos, é grosseiro e mora num pântano.
Ocorre que ambos se apaixonam e vão descobrindo a beleza de ser quem se é de verdade.
Fiona, ora é uma princesa, ora é uma “ogre” gordinha e verde. Independentemente da sua aparência mostra-se uma mulher forte, dona do seu próprio nariz, determinada, mas que em nenhum momento perde a sua feminilidade, tão pouco a sua beleza.
Shrek, apesar de aparentemente grotesco é doce, sensível e aprende a reconhecer e a demonstrar as suas inseguranças e fragilidades, entrando em contacto com os seus sentimentos mais profundos. Este conto começa a partir do fim dos contos de fadas tradicionais, pois é a partir do momento em que a princesa é salva que começam os problemas e se desenvolve a trama interna de cada um dos personagens.
O despertar desse amor, num primeiro momento, deixa-os confusos, provocando a dúvida a respeito de quem são e do que sentem. Consequentemente, inicia-se um processo de transformação em cada um deles.
Ambos podem olhar-se e encantar-se com o que está além das aparências. Vivem intensos conflitos internos; não sabem se conseguirão continuar a atender as expectativas externas; não podem mais acreditar nas suas ideias preconcebidas; deparam-se com os seus dramas existenciais e, por várias vezes, põem em dúvida o que estão sentindo e percebendo.
Fiona descobre que não é apenas aquela princesa que acreditava ser, mas escolhe, com consciência, assumir a sua verdadeira identidade.
Shrek não precisa mais de se esconder no pântano e aos poucos vai deixando cair as suas defesas, envolvendo-se com todos aqueles que despertam o seu afecto.
Ambos vivem um processo de ampliação das suas consciências e encontro com o “Si-Mesmo”, cumprindo o seu processo de individualização, ou seja, encontram-se com o que há de mais verdadeiro dentro de si.
Uma característica a ser ressaltada nesse conto é a valorização dos aspectos internos em detrimento dos externos, assim como dos aspectos existenciais em detrimento da estética.
Algumas mulheres procuram viver um conto de fadas ou uma realidade imaginária e, muitas vezes, sustentam essa posição para fugir do contacto inevitável com uma parte da realidade.
Mas, na verdade, como no conto, somos todas um pouco princesas e um pouco “ogres”! Isto é, todas nós temos aspectos que acreditamos não fazer parte de nossa personalidade, mas que nos reflectem sim, e que devem ser vistos, aceites, acolhidos e integrados à nossa consciência. Como disse num dos seus livros o psiquiatra suíço Carl G. Jung, “podemos encontrar verdadeiras pérolas na sombra”.
Essa é uma história que enfatiza a importância da reflexão e do contacto com o universo interno como possibilidade de transformação. Não apenas do ponto de vista individual, mas da consciência colectiva, uma vez que a transformação ocorrida dentro de Shrek e Fiona desencadeia uma mudança de consciência em todos os outros personagens.
Shrek – o filme – reflecte sobre o que é o belo, sobre o feminino, o masculino, o amor, a amizade, e, acima de tudo, sobre a possibilidade de se conviver com as diferenças sem julgamentos de valor. Acredito que manifestações e produções como essa possam realmente ser o prenúncio de uma consciência de alteridade, na qual os diferentes podem conviver, coexistir, sem necessidade de exclusão dos diversos atributos da complexidade humana.