sexta-feira, 26 de outubro de 2007

"Quando nos sentimos frustrados" por Ana Claudia Ferreira de Oliveira


Ao longo da vida passamos por situações, as mais variadas, que nos despertam diferentes emoções e sentimentos. Quando somos tomados por bons sentimentos, regra geral, sentimo-nos plenos, leves e realizados. Achamos que a vida vale a pena, que as coisas caminham bem, e sentimos que podemos continuar a trilhar naquela direcção.
Entretanto, quando somos tomados por sentimentos ditos “negativos”, como raiva, ódio, ira, inveja, entre outros, não gostamos das sensações despertadas. São sensações incómodas que, em geral, acordam “leões” adormecidos dentro de nós e levam-nos a questionar o caminho que estamos a seguir. Podemo-nos sentir perdidos, inseguros e assustados com a intensidade com que somos tomados pelas situações.
Quando isso acontece, a nossa tendência é tentar anular esses sentimentos, seja pela supressão, repressão ou pela simples libertação (descarga) de tudo aquilo que estamos a sentir. Sentimo-nos frustrados e queremos que tudo aquilo passe logo. A dor sentida é grande e, então, temos medo de não aguentar e explodir, ou de nos perdermos no abismo profundo do nosso lado “negro”.
Essas sensações desagradáveis despertadas são tanto mais insuportáveis de lidar conforme a capacidade que temos, ou não, de contê-las e transformá-las, de modo a se tornarem úteis para nós. Esse processo está ligado à nossa capacidade de tolerar frustrações.
Embora seja sempre muito desagradável a sensação causada pela frustração, podemos tirar partido dessa situação em prol do nosso desenvolvimento pessoal.
Deve-se estar a perguntar, como sentimentos maus e sensações desagradáveis podem tornar-se úteis para nós de algum modo. Pois bem, eles não só podem, como são necessários para o amadurecimento psíquico e para a integração da nossa personalidade.
Por mais que lutemos contra, é facto que não somos só constituídos de sentimentos nobres e emoções agradáveis. Do mesmo modo, nem sempre conseguimos, na nossa vida, ter reacções adequadas e socialmente aceites. Entretanto, temos a tendência de tentar, a todo o custo, evitar sentimentos desagradáveis, permitindo-nos apenas os “sentimentos nobres”, as “emoções satisfatórias” e as “reacções mais adequadas”.
Somos seres dinâmicos e, como tal, constituídos de luz e sombra, amor e ódio, paz e conflito. Existem camadas do nosso psiquismo e partes da nossa personalidade que ainda não conhecemos. O que há em nós de conhecido contrapõe-se a tudo o que não sabemos ou não tomamos contacto, que é a nossa sombra. E essa sombra constitui-nos tanto quanto o que há de “luz” em nós. Sem ela, não somos inteiros, não estamos íntegros. Acabamos por compor só uma parte da história, como se houvesse só “meninos”.
Entretanto, não há história completa sem “bandidos”, que representam tudo aquilo que há de não-conhecido, não-aceite ou não-integrado em nós. Eles incomodam-nos muito, e enquanto permanecem inconscientes, aprisionados no nosso “calabouço” psíquico, actuam sorrateiramente, provocando diferentes emoções, sensações, e reacções muitas vezes impensadas, inesperadas, ou até mesmo compulsivas, que podem parecer sem sentido ou a caminhar em contra mão da nossa vontade consciente.
Se houver disponibilidade para encarar os nossos próprios inimigos internos podemo-nos surpreender com o resultado. “Dar vida” ao lado negro e obscuro de nossa personalidade, pode ser o caminho não só para que não sejamos apanhados de “calças curtas” pelos nossos “bandidos”, como para que possamos integrá-los na nossa personalidade, enriquecendo a nossa experiência emocional e propiciando o desenvolvimento psíquico.
Sempre que há frustração é útil perguntarmo-nos o que, nas nossas expectativas, não foi atendido. Não há frustração sem expectativa prévia.
Quando nos deixamos levar pelas emoções desagradáveis e damos o tempo necessário para o processamento, no nosso mundo interno, de tudo o que nos é despertado por aquela situação, então, teremos condição de pensar sobre a experiência, tirando dela algum significado que pode vir a representar um ganho em termos de crescimento emocional.
Diante de situações de dor e frustração, podemos tentar, em primeiro lugar, sentir o que está a vir ao de cimo. Conforme os sentimentos forem aparecendo, podemo-nos questionar:
• O que esses sentimentos despertados significam?
• O que eu esperava que não alcancei?
• O que essa frustração está a ensinar-me sobre o meu mundo emocional e sobre o mundo emocional da outra pessoa com quem eu me relaciono nesse momento de dor?
• Quais são as crenças que tenho sobre mim, a vida, o prazer, o sucesso, os relacionamentos, e que essa situação só vem reafirmar?
• Há algo que eu possa fazer por mim, nesse momento, para aliviar a carga dessa frustração? (desde que não seja ter outros comportamentos que, mais tarde, trarão mais arrependimento e frustração, como no caso da pessoa que começa a comer demais para tentar não sentir e não olhar para aquela dor, ou daquela que gasta todo o seu orçamento mensal e depois se arrepende ficando com várias dívidas para acertar)
• O que eu fiz ou como eu contribui para que o resultado da situação fosse esse?
• O que eu posso fazer para que, de uma outra vez, o resultado seja diferente?
• O que essa situação me acrescenta em termos de conhecimento sobre a vida, sobre as pessoas, sobre os relacionamentos, de modo a que eu possa capacitar-me melhor para outras situações que a vida ainda me reserva?
Essas e outras questões podem-nos ajudar a lidar com a sensação de frustração.
Se observarmos mais a fundo, veremos que muitas vezes deixamos de viver e esperar, desejar e sonhar na vida, com medo da frustração. Quando temos pouco ou quase nenhum contacto com o nosso mundo emocional assustamo-nos com o que sentimos diante da frustração e temos medo de não encontrarmos sustentação e aparato internos para lidar com a situação. Sentimos que não há esperança.
Na tentativa de nos livrarmos da dor, tendemos a anestesiarmo-nos e a refugiarmo-nos em algum espaço dentro de nós onde nos sintamos seguros. Procurando evitar o sofrimento, deixamos de viver, e assim, sem perceber, seguimos como “mortos-vivos”, sem nos envolvermos directamente em nada, seja um trabalho, um projecto, um relacionamento, um tratamento, etc.
O facto é que, assim, estamos a evitar a própria vida, abrindo mão de vivê-la. Se algum projecto, trabalho, relacionamento ou tratamento teria alguma possibilidade de dar certo, de trazer prazer, bem-estar e realização, nunca saberemos, porque diante do temor de não conseguir ou perder, estamos a escolher não tentar.
A fuga das emoções e sentimentos negativos é uma escolha que nos tira do contacto verdadeiro com o nosso ser, afasta-nos de quem somos e deixa-nos cada vez mais esvaziados. No final de contas, ao contrário do que possa parecer, evitar as nossas emoções negativas, deixa-nos frustrados e sem sentido para a vida.
Só o contacto real e verdadeiro com tudo o que há de mais vivo no nosso íntimo, sejam emoções agradáveis ou desagradáveis, sentimentos “nobres” ou “mesquinhos”, permite que nos sintamos seres inteiros e fortalecidos, fazendo dos momentos de dor e crise, oportunidades para o crescimento e transformação, no caminho de uma vida mais plena e feliz.

sábado, 13 de outubro de 2007

David Fonseca - 4th Chance

Presenteio-vos com uma das músicas do álbum "Dreams in colour" do meu "superstar" David Fonseca, "4th Chance"... Como devem perceber foi-me difícil escolher uma só para pôr aqui, mas um amigo especial gostou desta música, portanto foi a escolhida...
Este cd é uma verdadeira terapia.... Faz bem a tudo, acreditem...
Espero que gostem... E que o oiçam... Tenho a certeza que depois de o ouvirem uma vez, vão querer ouvir muitas mais...

domingo, 2 de setembro de 2007

Professor português é Educador Internacional do Ano 2007

"Freitas-Magalhães, professor da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, foi nomeado Educador Internacional do Ano 2007, pelo Centro Biográfico Internacional de Cambridge."


"Segundo o Centro Biográfico Internacional (IBC) de Cambridge, o professor Freitas-Magalhães foi escolhido pelo "pioneirismo dos seus trabalhos científicos sobre a psicologia do sorriso humano e pela inovação dos seus métodos educativos", refere a universidade, em comunicado.O IBC, fundado há mais de 40 anos, é o líder mundial de publicação de biografias, tendo já editado 150 livros com dados biográficos de mais de um milhão de pessoas."Anualmente, milhares de biografias de personalidades do mundo académico, cadastradas no IBC, são analisadas em busca de grandes responsáveis por influenciar e incentivar os jovens e futuros líderes do Mundo", lê-se na notificação oficial do prémio, citada pela Universidade Fernando Pessoa (UFP).Segundo o director-geral do IBC, Nicholas Law, "o prémio de Educador Internacional do Ano é concedido apenas a personalidades que trabalham com destaque em prol da educação no Mundo".Freitas-Magalhães é director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Faculdade de Ciências da Saúde da UFP e autor de vários livros, entre os quais "A Psicologia das Emoções" e "A Psicologia do Sorriso Humano"."

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Como é ser mãe??? E pai???

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Mika - Love Today

Aqui fica um momento de descontracção, animação, muita alegria como só o Mika sabe proporcionar. A minha música preferida Love Today. Deliciem-se...

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Ser feliz, por Chantal Féron


Perante uma vista sobre o mar capaz de fazer esquecer a vida a qualquer um, percebi que não basta simplesmente escolher ser feliz…

A vida leva-nos por caminhos imprevistos nos quais raras são as pessoas ou situações que, por se terem fundido tão intensamente aos nossos sentidos, nos fizeram felizes e perduram na memória.
Surgem inesperadamente e até, por vezes, onde não queríamos encontrá-las, como se derivassem de um conjunto de circunstâncias que naquele momento coincidiram com o que ansiávamos, satisfazendo-nos.
Delas ficam a nostalgia, uma procura instintiva de felicidade e alguma angústia por não conseguirmos imprimir-lhes durabilidade.
A felicidade passa a ser uma estranha obsessão irrealista de plenitude, para a qual não conseguimos atribuir uma razão lógica ou uma definição objectiva, como se a necessidade de dar um sentido à vida passasse obrigatoriamente por aceder a uma idealização.
Mas, como a vida não tem apenas um lado positivo, são as ilusões, a imaginação e uma procura constante da felicidade que nos permitem desejar, projectar e concretizar os nossos sonhos.
Talvez a forma de atingir a felicidade passe por deixar de nos atormentarmos com ela ou, por sermos capazes de afastar o que não queremos ver… ou ainda, em deixarmo-nos de fazer promessas impossíveis de realizar ao ponto de elaborarmos uma falsa e inatingível noção de felicidade.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

3 autores, 1 pergunta, por Sam Cyrous



Quando nos levantamos de cama, todos os dias, a vida parece reiniciar no ponto em que havia parado no dia anterior. As pessoas que amamos continuam as mesmas e os nossos medos mantém-se. Somos quem éramos ontem: o mesmo corpo, a mesma mente e aquela mesma essência à qual podemos chamar de alma. Tantas vezes, tantos autores numa miríade de contos, livros e películas abordaram esse que é o tema crucial da existência humana: quem somos?
Quantos somos? Aonde caminhamos nessa jornada da vida?
Desde Platão a Pessoa, desde Krishna a Bahá’u’lláh, desde Tales a Schrödinger, que procuramos incessantemente encontrar aquela unidade que nos integra, que nos faz sermos únicos num mundo repleto de outros seres únicos com os quais nos integramos em associações e dissociações incessantes.
Após a leitura de A Cidadela Branca (Presença), de Orhan Pamuk, o leitor fica perplexo: afinal, o Prémio Nobel da Literatura não é mais um escritor que escreve à brisa de um teclado de computador ou máquina de escrever; afinal há algo mais que aquela construção frásica única, algo que se perdeu entre aquelas vírgulas da vida, onde “os outros” são como “nós”, na interculturalidade da dúvida e no reencontro de mim mesmo. Quem escreveu aquela obra? Quantos viveram aquela história e porquê a viveram?
Como é que os mágicos sobrepunham a ilusão de existir?
Como é que, em O Terceiro Passo, Christopher Nolan articula o sonho e o desprende da realidade? Até que ponto somos capazes de dedicar a nossa vida ao que desejamos ser? Até onde vai o sacrifício pelo amor à obra, pela obra do amor?
É esta pergunta que Vítor Sousa tenta responder no seu Tricot do Tempo (Magna). Expoente duma futura geração de artistas da literatura portuguesa, Sousa não é mais um autor de escrita fácil e de conseguinte leitura fácil.
Preocupa-se, a cada letra milimetricamente pensada, com o infortúnio da solidão e com a liberdade mesmo quando ela parece inexistente.
Sousa relembra que somos todos detentores da “memória da morte numa gotícula de vida”: gotícula que deve ser vivida. Sousa descreve o ser humano como o ser que “passa o tempo a reler e rever as páginas que já partiram”, esperando a derradeira “página em branco”, a cidadela branca de Pamuk, o terceiro passo de Nolan, onde descobrimos que afinal nós éramos o outro e o outro em nós residia. É neste ponto que nos abandonamos à procura do que poderíamos ter sido, e do que ainda poderemos ser! Tricoteamos com o tempo, na esperança de, durante a vida, podermos deixar a nossa marca no espaço e no tempo, na esperança de atingirmos a plenitude do amor pela vida que escolhemos “ao ponto de – como diria Pamuk – acabar por assumi-la” e, talvez até vivê-la.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O difícil término dos relacionamentos, por Ana Claudia Ferreira de Oliveira


Quando somos apanhados pelo pedido de separação ou de término do outro, fazemo-nos as fatídicas perguntas: Porquê comigo? O que fiz eu de errado? E essas perguntas soam, muitas vezes, como verdadeiras bombas caindo sobre as nossas cabeças. Já estamos fragilizados emocionalmente, e ainda temos de arcar com as consequências da separação.
Estávamos acostumados a ter aquela pessoa para dividir os nossos assuntos, as nossas alegrias e as nossas tristezas, e de repente, essa tristeza, especificamente, não podemos dividir mais com ela, porque a outra pessoa é parte e “causa” dessa tristeza. Coloco a palavra “causa”entre aspas, porque não acredito que um outro possa ser causador directo de nenhum mal a alguém, em se tratando de sentimentos e emoções. Ninguém deixa de gostar de uma pessoa porque quer, nem decide isso do dia para a noite. O “desgostar”de alguém leva um tempo para acontecer. E normalmente temos dificuldade em encarar a nossa responsabilidade quando o outro deixa de nos amar. Só ele é que é o vilão porque não nos ama mais.
O facto é que, se o relacionamento acabou, é melhor para nós se conseguirmos encarar essa realidade o quanto antes, para que possamos colocar um ponto final nessa etapa de nossa história e partir para outra. Só que isso também não é tão simples. Primeiro, porque nós também vamos agora ter que ter um tempo para desgostar do outro. Por mais que o nosso racional nos mostre que não há a menor hipótese do relacionamento continuar a existir, o nosso emocional precisa de tempo para elaborar o luto pela perda do ente amado.
E esse processo não é nada fácil. Várias pessoas passam anos a sofrer pelo término de uma relação que acabou, já, há muito tempo. Mesmo que às vezes se apaixonem por outra pessoa, aquele relacionamento fica como uma marca na vida dela, e impede-a, muitas vezes, de seguir em frente ou de viver plenamente um relacionamento com uma nova pessoa.
Esquecer um relacionamento que já acabou envolve várias questões, e aqui vou citar algumas delas que me vêm à lembrança agora.
Primeiramente, existe a questão do quanto idealizamos o outro, colocando nele várias qualidades, que muitas vezes ele não tem, mas, por imaginarmos que tem, fica difícil de abandonarmos o sonho da pessoa perfeita para nós.
Outra questão é a do quanto investimos naquela relação, naquele sonho de amor, e mesmo sabendo que ela não existe mais, não queremos abrir mão depois de tanto investimento. Podemos comparar essa situação com alguém que aplica o seu dinheiro na bolsa de valores, sofre uma perda, e mesmo sabendo que já perdeu o seu dinheiro, tenta manter a mesma posição, à espera que a bolsa volte a subir e que ele recupere o valor investido.
Ainda há também a questão do quanto é difícil, e aqui falo principalmente dos homens, colocar um ponto final no relacionamento. Os homens têm mais dificuldade nesse aspecto, pensam que vão magoar a mulher e temem não conseguir lidar com a decepção que vão causar nelas. Nesses casos, tendem a enrolar, dizem que talvez não seja o momento, ou que estão confusos (e às vezes estão mesmo!). O facto é que não conseguem dizer aquele NÃO enorme que muitas vezes é necessário para um término de um relacionamento.
E, por último, há aquela questão de que “a mulher não ama, a mulher cisma”. É claro que a mulher ama sim, e muito, mas há muitas mulheres que enquanto acham que estão a amar, na verdade, estão é numa cisma danada com aquela pessoa. Sofrem, choram, passam anos a relembrar situações que muitas vezes nem aconteceram daquela forma, mas que com a nossa capacidade imaginativa, fazem maravilhas, transformando o passado em flores. Nesses casos não há amor, há cisma. Precisamos ter primeiro, o amor verdadeiro por nós mesmas, para depois sabermos amar o outro. Alguém que não está mais a ser amada, e insiste ainda no sonho fracassado, mostra que não está a amar-se; se não se ama, provavelmente não sabe o que é o amor, e não pode amar um outro.

domingo, 5 de agosto de 2007

As “Multicores” da inteligência, por Gisela Geraldes da Fonseca


No início do séc. XX, as autoridades francesas solicitaram a Alfred Binet que criasse um instrumento pelo qual se pudesse prever quais as crianças que teriam sucesso nas escolas parisienses. O instrumento criado por Binet, onde o Q.I. seria a sua medida, testava a habilidade das crianças nas áreas verbal e lógica, uma vez que os currículos académicos enfatizavam sobretudo o desenvolvimento da linguagem e da matemática.
O sucesso deste teste tornou-se evidente nos Estados Unidos, quando, na I Guerra Mundial, cerca de 1 milhão de recrutas foram seleccionados através do mesmo. No entanto, a insatisfação com o conceito de Q.I. e suas versões levou alguns estudiosos a criticarem seriamente esse conceito de inteligência.
Em 1983, surge Howard Gardner que, em colaboração com a sua equipa da Universidade de Harvard, propôs a Teoria das Inteligências Múltiplas, como um desafio à visão clássica da inteligência. Para este psicólogo americano deveriam ser abandonados os testes e as suas correlações e observar as fontes de informação mais naturalistas em relação à forma como os indivíduos desenvolvem capacidades importantes para os seus modos de vida. Gardner define a inteligência como a “capacidade de resolver problemas ou criar produtos que são importantes num determinado ambiente cultural ou comunidade” (1995).
Quando desenvolveu a sua teoria, identificou sete tipos de inteligências, das quais: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, coroporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal.
Ao longo do desenvolvimento dos seus estudos incluiu mais três, nomeadamente: pictórica (distinguindo-a da espacial), naturalista e, em 2002, incluiu a existencial ou espiritual.
(excerto)

terça-feira, 31 de julho de 2007

Ser para Ter, por Armando Correa de Siqueira Neto


"A felicidade não provém de terdes muito, mas sim, de serdes muito. Pois sendo muito, evidentemente, possuireis tudo o que desejardes". Com esta frase brilhante de Lourenço Prado, um estudioso do psiquismo e do desenvolvimento humano, pode-se reflectir sobre o tipo de objectivo que as pessoas têm ao longo da vida. É possível almejar situações distintas: ter ou SER, e ainda, ambas. Via de regra, boa parte da população deseja ter, coisas de um modo geral. E, para tal, despende-se uma enorme quantidade de energia, haja vista os esforços que são necessários para se concretizar os desejos frequentes de consumo.
No entanto, quando a pessoa possui conhecimento, experiência e sabedoria, torna a aquisição das coisas em geral, muito mais fáceis. Ou seja, quanto mais somos, em inteligência e aplicabilidade da mesma, melhor planejamos e obtemos os resultados do que pretendemos na vida. E, aqui especialmente, incluem-se outros tipos de aquisição, além dos objectos: amizade, simpatia, adaptação, compreensão, admiração, etc. Para tanto, precisamos muito mais SER do que ter.
À medida em que se avança nesta direcção, cada qual à sua maneira, faz-se mais portas abrirem-se. As pessoas que crescem em SER são percebidas em virtude da sua atmosfera atraente. Assemelham-se a um imã, cujo magnetismo atrai e prende. Desta forma, o seu jeito diferente de SER cria novas formas de se relacionar e, consequentemente, amplia-se as hipóteses de ser mais bem aceite e admirado. SER é um estado que dá trabalho também, todavia vale qualquer esforço, uma vez que se adquire algo permanente, e não passageiro como os objectos. Assim, tem-se um tesouro que atrai outras riquezas, com solidez e segurança. Além, é claro, de aumentar o desenvolvimento pessoal, a auto-estima, o poder social, etc. Deseje as duas condições para si próprio, dando prioridade ao que fundamenta a ordem das coisas: SER para ter
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Ditadura da Beleza – uma visão subjectiva, por Sâmara Jorge

Não é de hoje que somos sistematicamente submetidas a um forte apelo pela valorização da estética.
Abrimos as revistas, ligamos a TV, olhamos outdoors pelas ruas e lá estão expostos corpos esquálidos como ideal de perfeição feminina, sem falar do culto à ginástica - imagens que pouco reflectem os padrões reais da grande maioria da população.
A cada dia proliferam academias, clínicas de estética, novos tratamentos anti envelhecimento, anti estrias, “anti-isso”, “anti-aquilo...”ufa!!!
É tanta informação e novas propostas que, se não tivermos senso crítico, somos levadas a querer experimentar tudo ou, o que é pior, sentimos a nossa auto-estima ir a baixo.
Sem dúvida, a vaidade, a estética e o culto à saúde, são muito importantes. Isso só se torna um problema quando há uma super valorização desses aspectos.
Não é raro que esse excesso de preocupação com a beleza e a estética esteja a serviço de evitar confrontos com a realidade, ou com sentimentos de frustração, medo, angústias e inseguranças. E essa parece ser uma questão do mundo actual. Basta olharmos para a incidência cada vez maior e mais precoce do número de casos de transtornos alimentares e depressões. É inequívoco que essas patologias têm como causa dificuldades internas muito profundas, mas também são reforçadas por valores culturais, que chamarei aqui de ditadura da beleza.
Constantemente recebo no meu consultório mulheres inseguras, com a auto-estima bastante comprometida, em geral, sozinhas, em busca de um parceiro. Não atender a esses padrões, muitas vezes compõe a lista de factores que minam a sua segurança. Não conseguem valorizar a sua beleza, nem mesmo outros aspectos tão interessantes das suas personalidades!
Fico a pensar o quanto a valorização desses atributos externos está tão arraigada em nossa consciência que deixamos de olhar para o que realmente importa: a essência humana que está dentro de cada um de nós!
Isso sem falar nos contos de fadas, que mostram como ideal do modelo feminino, princesas loiras, de cabelos lisos, magrinhas, passivas, cujo único desejo é encontrar um lindo príncipe encantado: forte, valente, protector, bonito, etc. Quase sempre são personagens sem identidade própria, sem atitude e esvaziadas de conteúdo.
E o que dizer das bruxas más que são sempre feias...
Contudo, ouso dizer que há uma centelha de mudança a brilhar nas nossas consciências...
Shrek – o filme – é um exemplo disso. Trata-se de um conto de fadas moderno, que polariza com essa valorização do ideal de beleza e põe em questão o que é belo e verdadeiro em e para cada um de nós. Parece conter um novo paradigma, já que mostra a multiplicidade da natureza humana em cada personagem.
Fiona é uma princesa que carrega um segredo: a sua dupla natureza. De dia é uma “linda” princesa, à noite transforma-se num “ogre”. Foi atingida pelo feitiço de uma bruxa que disse que só encontraria a sua essência quando fosse beijada por um príncipe.
Acredita, assim como todos que estão à sua volta, que a sua verdadeira identidade é a de princesa. Entretanto, é salva por Shrek, um ogre que também acredita não ser o seu príncipe, pois é feio, não tem bons modos, é grosseiro e mora num pântano.
Ocorre que ambos se apaixonam e vão descobrindo a beleza de ser quem se é de verdade.
Fiona, ora é uma princesa, ora é uma “ogre” gordinha e verde. Independentemente da sua aparência mostra-se uma mulher forte, dona do seu próprio nariz, determinada, mas que em nenhum momento perde a sua feminilidade, tão pouco a sua beleza.
Shrek, apesar de aparentemente grotesco é doce, sensível e aprende a reconhecer e a demonstrar as suas inseguranças e fragilidades, entrando em contacto com os seus sentimentos mais profundos. Este conto começa a partir do fim dos contos de fadas tradicionais, pois é a partir do momento em que a princesa é salva que começam os problemas e se desenvolve a trama interna de cada um dos personagens.
O despertar desse amor, num primeiro momento, deixa-os confusos, provocando a dúvida a respeito de quem são e do que sentem. Consequentemente, inicia-se um processo de transformação em cada um deles.
Ambos podem olhar-se e encantar-se com o que está além das aparências. Vivem intensos conflitos internos; não sabem se conseguirão continuar a atender as expectativas externas; não podem mais acreditar nas suas ideias preconcebidas; deparam-se com os seus dramas existenciais e, por várias vezes, põem em dúvida o que estão sentindo e percebendo.
Fiona descobre que não é apenas aquela princesa que acreditava ser, mas escolhe, com consciência, assumir a sua verdadeira identidade.
Shrek não precisa mais de se esconder no pântano e aos poucos vai deixando cair as suas defesas, envolvendo-se com todos aqueles que despertam o seu afecto.
Ambos vivem um processo de ampliação das suas consciências e encontro com o “Si-Mesmo”, cumprindo o seu processo de individualização, ou seja, encontram-se com o que há de mais verdadeiro dentro de si.
Uma característica a ser ressaltada nesse conto é a valorização dos aspectos internos em detrimento dos externos, assim como dos aspectos existenciais em detrimento da estética.
Algumas mulheres procuram viver um conto de fadas ou uma realidade imaginária e, muitas vezes, sustentam essa posição para fugir do contacto inevitável com uma parte da realidade.
Mas, na verdade, como no conto, somos todas um pouco princesas e um pouco “ogres”! Isto é, todas nós temos aspectos que acreditamos não fazer parte de nossa personalidade, mas que nos reflectem sim, e que devem ser vistos, aceites, acolhidos e integrados à nossa consciência. Como disse num dos seus livros o psiquiatra suíço Carl G. Jung, “podemos encontrar verdadeiras pérolas na sombra”.
Essa é uma história que enfatiza a importância da reflexão e do contacto com o universo interno como possibilidade de transformação. Não apenas do ponto de vista individual, mas da consciência colectiva, uma vez que a transformação ocorrida dentro de Shrek e Fiona desencadeia uma mudança de consciência em todos os outros personagens.
Shrek – o filme – reflecte sobre o que é o belo, sobre o feminino, o masculino, o amor, a amizade, e, acima de tudo, sobre a possibilidade de se conviver com as diferenças sem julgamentos de valor. Acredito que manifestações e produções como essa possam realmente ser o prenúncio de uma consciência de alteridade, na qual os diferentes podem conviver, coexistir, sem necessidade de exclusão dos diversos atributos da complexidade humana.