terça-feira, 14 de agosto de 2007

3 autores, 1 pergunta, por Sam Cyrous



Quando nos levantamos de cama, todos os dias, a vida parece reiniciar no ponto em que havia parado no dia anterior. As pessoas que amamos continuam as mesmas e os nossos medos mantém-se. Somos quem éramos ontem: o mesmo corpo, a mesma mente e aquela mesma essência à qual podemos chamar de alma. Tantas vezes, tantos autores numa miríade de contos, livros e películas abordaram esse que é o tema crucial da existência humana: quem somos?
Quantos somos? Aonde caminhamos nessa jornada da vida?
Desde Platão a Pessoa, desde Krishna a Bahá’u’lláh, desde Tales a Schrödinger, que procuramos incessantemente encontrar aquela unidade que nos integra, que nos faz sermos únicos num mundo repleto de outros seres únicos com os quais nos integramos em associações e dissociações incessantes.
Após a leitura de A Cidadela Branca (Presença), de Orhan Pamuk, o leitor fica perplexo: afinal, o Prémio Nobel da Literatura não é mais um escritor que escreve à brisa de um teclado de computador ou máquina de escrever; afinal há algo mais que aquela construção frásica única, algo que se perdeu entre aquelas vírgulas da vida, onde “os outros” são como “nós”, na interculturalidade da dúvida e no reencontro de mim mesmo. Quem escreveu aquela obra? Quantos viveram aquela história e porquê a viveram?
Como é que os mágicos sobrepunham a ilusão de existir?
Como é que, em O Terceiro Passo, Christopher Nolan articula o sonho e o desprende da realidade? Até que ponto somos capazes de dedicar a nossa vida ao que desejamos ser? Até onde vai o sacrifício pelo amor à obra, pela obra do amor?
É esta pergunta que Vítor Sousa tenta responder no seu Tricot do Tempo (Magna). Expoente duma futura geração de artistas da literatura portuguesa, Sousa não é mais um autor de escrita fácil e de conseguinte leitura fácil.
Preocupa-se, a cada letra milimetricamente pensada, com o infortúnio da solidão e com a liberdade mesmo quando ela parece inexistente.
Sousa relembra que somos todos detentores da “memória da morte numa gotícula de vida”: gotícula que deve ser vivida. Sousa descreve o ser humano como o ser que “passa o tempo a reler e rever as páginas que já partiram”, esperando a derradeira “página em branco”, a cidadela branca de Pamuk, o terceiro passo de Nolan, onde descobrimos que afinal nós éramos o outro e o outro em nós residia. É neste ponto que nos abandonamos à procura do que poderíamos ter sido, e do que ainda poderemos ser! Tricoteamos com o tempo, na esperança de, durante a vida, podermos deixar a nossa marca no espaço e no tempo, na esperança de atingirmos a plenitude do amor pela vida que escolhemos “ao ponto de – como diria Pamuk – acabar por assumi-la” e, talvez até vivê-la.

5 comentários:

Anónimo disse...

Este texto esta fascinante, e ajuda-nos a reflectir acerca da nossa condição humana, e como a encaramos.
Passamos a vida a questionarmos acerca de nós mesmos, desperdiçamos o nosso tempo, que por sinal já é bastante curto, e nem reparamos que estas meras perguntas não nos levam a lado nenhum...

Adoro a parte final: ...«Tricoteamos com o tempo, na esperança de, durante a vida, podermos deixar a nossa marca no espaço e no tempo, na esperança de atingirmos a plenitude do amor pela vida que escolhemos “ao ponto de – como diria Pamuk – acabar por assumi-la” e, talvez até vivê-la.»

Esta parte é totalmente verdade, o problema do ser humano é que ele nunca se consegue assumir a si própio, acabanmdo por viver em desencontros permanentes e na indefinição total! Por isso mesmo acho que devemos começar a questionarmo-nos menos, preocuparmo-nos mais com as respostas, não deixando de todo que elas condicionem a nossa vida, devemos viver o momento, e desenvolver um auto-conhecimento ao longo de toda a vida, não vão ser as perguntas que nos vão resolver os problemas, pois elas as vezes não obtêm as respostas...

«Quando julgamos saber todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas...»

Beijo*

*Por entre o luar*

Anónimo disse...

Como te disse este post não é nada fácil de se comentar.. ou é?
Será uma pena a nossa média de vida ser cerca de.. oitenta anos? Era bom ter a experiência de oitenta anos e nascer de novo :)

Anónimo disse...

Sim senhor!! 20 dias de existência bloguiana, 100 visitas! Bolas! :) Parabéns!! Sugestão: Vai dando também a tua opinião no teu blog, poderá muito bem ir de encontro ou contra os próprios posts :)

Star disse...

Obrigado Luis pela tua sugestão...
És capaz de ter razão...

Beijoquitas...

SAM disse...

Bem, é sempre agradável lermos os nossos textos noutros espaços cibernéticos. Obrigado!

E se este blog começar, como o Luís disse, com opiniões da sua autora acho que somente ficaria mais rico.

Uma pergunta: és quem eu penso que és?